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EU DISSE SIM ÀS DROGAS - Antônio Ribeiro de Castro

EU DISSE SIM ÀS DROGAS

Periferia não produz Crack. De onde vêm tanta droga?


Esta afirmação, seguida de uma pergunta um tanto quanto ingênua, vem de alguém morador de periferia que experimentou droga para provar para a galera que não era careta e, como tantos que morrem ou que se matam por experimentá-la, fez-me este desabafo:


A droga vem dos “não”, dos “é proibido”, dos pecados, dos demônios. Cara, a droga se fortalece entre os jovens porque estes termos, rotulados de negativas, estimulam-nos a experimentá-la. Funcionam como ímã a atrair-nos por ser não, por ser proibido, por ser pecado, por ser demoníaco. Estes termos possuem uma áurea que atrai, que deturpa, que arrasta e que seduz. E a sedução é a ênfase das realizações joviais. Seduzir é possuir, é ter, é poder. É convergir tudo e todos para as mesmas aventuras, para as mesmas ações, mesmas conjecturas, mesmas loucuras. E a juventude, cara, vive em uma atmosfera em que dizer-se louco é, a priori, status. Fora isto, sou careta. Um fora da moda. Um fora da turma. E eu era da turma. Sacou, meu?


Como membro da turma não ficava a ouvir as asneiras dos meus pais, destes caras que andam certinhos, dos bonzinhos que carregam livros e sentam a bunda nestas escolas fudidas, meu. Na turma só tinha papo esperto, ações malucas, iradas, piradas, doidas mesmo. Cara, cê tem que se ligar na doideira que foi o primeiro pega, meu. Viajei, alucinei-me no ritmo das drogas, mano. Viajei e disse sim às drogas. Eis o que eu fiz na efervescência da minha adolescência. Tudo era farra, meu irmão. Tudo alegria. Tudo viagens. Tudo sim a estas montoeiras de nãos, de proibições, de pecados, de capetas a mim empurrados como o lado negro da vida. Quis desafiá-los. Quis negá-los, e neguei-os. Neguei-os como se estas negativas fossem caretas. Como se estas proibições fossem nefastas. E elas atraíram-me. Fui fundo nestas obscuridades e agora percebo que errei. Errei ao dizer sim às drogas simplesmente por ouvir inúmeras vezes a frase “diga não às drogas”. Esta frase parecia-me vazia, mas ao mesmo tempo tentadora. Esta frase me atraía, me excitava. Não queria aceitar o não. Eu era adolescente. Queria dizer não aos nãos. Sim, irmão, eu não queria ser careta. Eu disse sim às drogas.


Eu disse sim às drogas e tive vários amigos, de rocha mesmo, cara. Isto no início de minhas experimentações. Cara, que delícia. Que fogo eterno. Que maravilha. Reuníamos nas praças, nos cantos das ruas, nos banheiros das escolas, nas margens das lagoas, nos parques públicos, nas beiras dos rios. Reuníamos a galera e fumávamos, e bebíamos, e cheirávamos, e injetávamos, e viajávamos, e trepávamos, cara. Era tudo mil. Havia fartura de drogas. Todos me ofereciam. Eu era importante. Fazia parte da turma. E a turma era grande. E a turma aumentava. Éramos adolescentes. Éramos fortes. Éramos bonitos. Éramos unidos. Éramos a galera do contra. Éramos contrários ao não, contrários às proibições, favoráveis ao demônio. E este sintetiza minha atual realidade: um verdadeiro inferno.


Eu disse sim às drogas e refugio-me no meu inferno. Inferno de minhas alucinações. Inferno de minhas dependências. Inferno dos meus vícios. Inferno de minha solidão. Inferno do meu constante isolamento. Inferno para o qual levei meus familiares. Inferno no qual me ancoro só, sem turma, sem amigos, sem mim. Estou só. Necessito de minha turma e ela abandonou-me. Necessito dos familiares e eles não confiam mais em mim. Eles estão feridos por meus gestos, por minhas atitudes, por minha violência.


Eu disse sim às drogas e dependo delas. Elas são donas de mim. Não tenho mais liberdade. Não tenho fome. Não tenho sede. Não tenho vontade de beijar, de transar, de amar, de relacionar-me, de estudar, de trabalhar. Não tenho mais sonhos. Eu só quero droga, droga, droga e mais droga. Droga, antes compartilhada, agora necessitada. Antes euforia, agora morbidez. Ninguém a me oferece mais. Sou dependente desta merda e ninguém a compartilha comigo como no início. Para consegui-la tenho que roubar, às vezes até matar. Para conseguir esta bosta, cara, posso até matar.


Eu disse sim às drogas e elas estão destruindo-me. As drogas estão matando-me. Quer morrer assim como eu, cara? Quer morrer precoce, meu? Quer? Basta dizer sim às drogas e encontrarás seu próprio demônio. Diga sim às drogas e construirás seu próprio inferno.
 

Comentários:

17/03/2011 - sonia

O que mais me dói é que quem sempre paga o pato são os jovens, adolescentes despreparados vítimas de um sistema egoísta que está pouco se lixando para a fase do meio da vida. Cada fase da vida tem seu encanto,mas infelizmente na adolescência o encanto é marcado geralmente pela destruição.Porque para o jovem quanto mais experimentos melhor e os que trazem prazeres imediatos são avassaladores. O que podemos fazer? Como pais cuidar muito dos nossos filhos com um zelo que vai além das nossas forças.Como professores lutar não sei nem contra o que,porque também está além das nossas forças.

22/11/2010 - roberto

Cara tenho em mim, que tudo isso e a exclusao, social ate mesmo o sistema capitalista que estamo vivendo. e um tal de que quem puder mais engole o outro, so tem pensamentos de obter vantagem em cima de alguem, e que e esse alguem os excluidos, e cada vez mais excluidos, acabam por enfraquer a memoria e esquecendo de si mesmo, submetendo a qualquer regime para sobreviver... At roberto

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