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Hipódromo Humano - Antônio Ribeiro de Castro

Hipódromo Humano

HIPÓDROMO HUMANO

 

        Estive a vagar pelo centro da cidade. As pessoas corriam. Os carros corriam. Eu caminhava. Enquanto andava, observava o corre-corre dos apressados. Eu não estava com pressa, aliás, nunca estou. Ando a medir os passos e, paralelo a esta ultrapassada atividade humana, integro uma outra quase extinta, a arte de pensar.
        Quase sempre emudecido diante dos apressados, sem possibilidade de um aperto de mão, ou de um diálogo, ocupo-me a pensar. E pensar é um diálogo comigo mesmo. Sou eu falando com um eu interior, ou o eu interior falando com o eu que não é interior. Parece confuso este esclarecimento. Não me aprofundarei nestas buscas esclarecedoras. Deixo o filosofar aos entendidos. Sou um mero aprendiz. 


        Penso na necessidade de tanta correria. O mundo de hoje, considerado moderno, absorve e espalha a tendência inovadora da velocidade. Tudo é rápido, e esta constância, constrói costumes e crendices. Quanto mais rápido mais eficaz. E a eficácia norteadora de todos os estímulos centralizados na rapidez sucumbe peripécias extraordinárias da condição humana. Acelerando ao limite, sempre na busca de perfeições e realizações profissionais, a desumana gula exterior simplesmente ignora virtudes extremamente regidas pela beleza e pela simplicidade. Não há tempo para a busca. Tudo se concentra no encontro, e, este encontro, é sempre desprovido de emoções. Há sempre um imediato compromisso e nega-se o instante presente em prol do instante que virá. Vive-se com os olhos da alma nos afazeres futuros e esquece-se de viver o agora degustando e absorvendo cada delícia que compõe a existência. O agora é o momento mais importante para os que amam a vida e não apenas os compromissos futuros. Não se pode esquecer de que o futuro é sempre o agora e não o amanhã como se imagina a maioria.


        A pressa e o olhar centralizado somente no futuro longínquo afugentam dos corações sensibilidades básicas da alma humana. A escassez de amor, de sensibilidade e de solidariedade dos apressados não lhes permite perceber o mendigo na calçada, o faminto que pede, o velhinho que cai, a aposentada sendo assaltada, o ciclista atropelado, o jovem baleado, os que sofrem nos leitos dos hospitais, os solitários emudecidos nas praças, nas ruas, nos lares. Não lhes permite perceber e respeitar a alegria do outro, o sorriso das crianças, o esplendor da natureza. Nada disso lhes desperta atenção. Tudo se torna normal, meras vítimas do destino, fenômenos corriqueiros do cotidiano. Há algo importante logo adiante. A dor alheia é problema a ser resolvido pelos governantes, ou por entidades competentes. Alegrar-se, sensibilizar-se, respeitar; coisas ultrapassadas, romanescas. 


        __ Sai da frente, não tem o que fazer não, ô lesmão!?


        Tinha. Estava a observar os apressados e a refletir sobre esta prioridade moderna. Estava a pensar e movia-me lentamente. Deixava vagar-me pelas profundezas da alma.  Não me aborreci com o apressado que me ofendeu. Continuei meu caminhar lentamente e, por instantes, esqueci-me de minha neutralidade naquele hipódromo humano. Lembrei-me de quando corria pelas ruas e pelos pátios das escolas e pelos campos de várzea com meus amigos apenas por diversão. Por instantes deu-me vontade de ser novamente criança a correr de pés descalços simplesmente pelo prazer de correr. Outro esbarrão despertou-me no futuro do corre-corre financeiro no centro da cidade.   

Antônio Ribeiro de Castro. Graduado em Letras e Educação Física.

 

Comentários:

03/08/2010 - Celso

A pressa é inimiga da perfeição. O ser humano foi talhado para buscá-la, mas, tudo ao seu tempo. A pressa tem destruído conceitos e causado prejuízos, espirituais e até materiais. Sobre os materiais, que é o interesse dos capitalistas, basta ver o grande número de recal que as montadoras promovem. Marcas considerada excelentes tem chamado consumidores para reparos em veículos que eram símbolo de status e eficiência. Tudo em função do produzir mais e aumentar o lucro. Em Eclesiastes tem um texto que fala da vaidade, "Tudo é vaidade". Ajunta-se riquezas e dinheiro para deixar para outro. Corre-se em busca de objetivos fúteis e se esquece de ver o filho crescer. Lamentável.

30/07/2010 - Rafaela Meira Nascentes

Putz, como escreve bem o Antonio heim. Nunca imaginei. Ótimo preparador físico, mas o texto mostra com também é um ótimo escritor... Parabéns :D

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